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17 de julho de 2013

SOGRA NA CABEÇA

(Publicado originalmente em Gritos&Bochichos em 30/3/2010.)
Sonhou com a sogra e quis jogar no bicho. Como não há piranha, cravou na vaca. Faturou uma nota razoável. Espalhou para todo mundo. A sogra ficou sabendo. E, se já tinha uma birra danada do genro, um pau-mandado sem a menor compostura, um zé-ninguém, aí é que ficou queimada. Mandou dizer ao desfibrado que não lhe cruzasse o caminho, não pisasse sua casa, nem em caso de morte ou de diarreia prolongada, que ela não responderia por si mesma, pelos seus atos. A filha, a desinfeliz que foi casar-se com uma besta daquela, não se metesse. Ficasse lá com aquele monte de merda, que ela não precisava de filha que deu tão péssimo passo na vida.
Quando soube da reação da sogra, foi beber cerveja no bar de tão alegre. Gostava de ver a velha caninana soltando fogo pelas ventas, cuspindo marimbondos.
Tornou a sonhar com a sogra e, novamente, quis jogar no bicho. Como não há égua, jogou no burro e na cobra. Ganhou no primeiro e no segundo prêmios. Faturou uma nota de respeito, maior que a anterior. Tornou a contar para todo mundo. A mulher pediu-lhe discrição, deixasse de implicância com a mãe, ela, coitada, viúva tresnoitada e carente.
Mas, não se sabe por que portas travessas, a sogra ficou sabendo de tudo com detalhes, até do riso escrachado dele quando viu o resultado da extração das quatorze horas. Sem pestanejar, municiou o trinta-e-oito do falecido, pegou a bolsa e tomou o Praça XV-Maria da Graça para achar o canalha.
Imagem em expressodooriente.com.
Em casa não estava, a filha desesperada, mãe não faça besteira. A sogra foi até o bar, onde o pulha costumava tomar alguns pileques. Lá estava ele, no meio de uma roda de desocupados das tardes de terça-feira, arrotando vantagens, vomitando superioridades. Sem com-licenças boas-tardes, a coroa entrou no bar vendendo azeite, cheirando a chifre queimado, catingando chamusco, espumando pela boca. Meteu a mão na bolsa, tirou o tresoitão municiado e remuniciado, tambor abarrotado de balas, e mirou nas ventas do filho-de-uma-égua.
Ele, dona Doquinha pra lá, dona Doquinha pra cá, minha sogra o que é isso, tenha juízo, tome tenência, cuidado que isso dispara, pelo amor dos seus netos.
Ela, seu cachorro bernento, seu miserável, postema infectado, pau-de-amarrar-égua, meto-lhe um tiro na caixa-de-catarro se você não se ajoelhar aos meus pés e me pedir perdão, se você não beijar o chão e não lamber a sola do meu sapato, se não disser pra essa cambada de frouxos que você é um frouxo também, um mariquinhas, um joão-ninguém imprestável, e pode começar senão a máquina-de-fazer-viúva começa a pipocar.
Foi só acabar de dizer isso tudo e sapecou logo um tiro na aba da orelha do paroleiro, a fim de mostrar que não estava para conversa fiada.
Orelha chamuscada, o capacho começou a pedir perdão minha sogrinha, não faça besteira, que eu gosto muito da senhora. E beija o pé, e beija o chão, e lambe a sola do sapato da destemperada, além de se mijar todo feito criança de urina solta.
A sogra, trepada nas tamancas, por cima da carne-seca, ainda deu-lhe um chute nos bagos, de ofender a masculinidade, e pipocou mais uns dois tiros no bar, para arrematar tudo bem dentro dos conformes. E saiu feito um marechal-de-campo após a batalha vencida.
O desqualificado ainda teve de passar um pano de chão na vergonhosa poça de mijo no salão do bar.


12 de julho de 2013

NÃO SE META COM CAMPISTA

 (Publicado originalmente em Gritos&Bochichos em 15/10/2010.)
Na venda do Alcides, em Cacimbas, quase tudo acontecia. Nesse dia, Marino e Mariano se engalfinharam por uma ninharia: saber qual dos dois conseguiria, em menor tempo, o amor de Mariana, donzela bonita e prendada, sonhada por todos.

Claro estava que nenhum dos dois conseguiria. Onde já se viu ficar discutindo isso em venda de beira de rua, movidos a doses de genebra e conhaque de alcatrão?

Mas, enfim, estavam os dois ali agora atracados um ao outro, rolando no chão do armazém, com uma chusma de beberrões em volta, atiçando ainda mais a fúria dos desafetos. Se não fosse a disposição do dono do estabelecimento, o campista dobrado de nome Alcides Oliveira, que pulou o balcão com um chicote na mão e entrou de lambadas na cacunda deles, os dois talvez estivessem brigando até hoje.

Nessa época, São Francisco do Itabapoana atendia pelo nome de Cacimbas e tinha duas ruas em forma da letra T: uma chegava e não saía e a outra ia e não voltava. No chão, em lugar de pedra, asfalto ou barro, era areia o que se via, por muito próxima da praia de Guaxindiba.

Vez e outra, Alcides tinha de tomar atitudes para pôr ordem na casa. Morava atrás, com a família numerosa, cheia de meninos e meninas, uns já mais crescidinhos, e não podia tolerar qualquer balbúrdia em seu estabelecimento comercial.

Quando, enfim, conseguiu agarrar Marino e Mariano pelo colarinho, levou-os até a porta, aos safanões, ordenando que só voltassem depois de curada a carraspana. Também não podia ser radical para não perder a rala freguesia de uma vila quase sem ninguém.

Num senão as coisas voltaram aos conformes.

Passou-se uma semana e lá estão os dois de volta, sóbrios, conversando pela rua. Alcides os avista de dentro da venda e se previne: põe o chicote ao alcance da mão.

Os dois entraram com a cara mais deslavada do mundo, cheios de boas-tardes seu Alcides, como tem passado. Para não parecer mais turrão do que de fato era, Alcides respondeu. Mas foi só o primeiro pedir uma dose de genebra, para advertir que não queria confusão, discussão e briga, por causa de mulher. Os dois disseram para não se preocupar, que aquilo tinha sido um destempero que não voltaria a acontecer, as pazes já tinham sido refeitas, eles amigos de infância. Toda essa ponderação liberou Alcides para servir a dose de bebida.

Conversa vai, conversa vem, bebericam daqui, bebericam de lá, comem um naco de salame, uma fatia de charque do Rio Grande, a temperatura começa a esquentar. Agora não mais sobre Mariana, mas sobre Goitacás e Americano. O meu time é melhor, o seu não tem tradição, lembra da goleada de domingo passado, isso foi um acaso. O Alcides só de olho!  Num vintém de tempo, sem que o cuspe chegasse ao chão, a turma presente na venda se dividiu na discussão sobre os dois times, até que o caldo entornou. Saiu sopapo para todos os lados, de ninguém se entender. Todo mundo batia e apanhava, indistintamente.

Alcides, vendo que o chicote era pouco para a gravidade da ocasião, correu lá dentro do quarto, de onde já veio com a garrucha engatilhada. O tiro ribombou por cima do topete dos briguentos, com os chumbos se aninhando no alto do forro da venda, de pé direito avantajado. Foi um deus-nos-acuda! Mais de dez saíram espremidos pelas duas portas da venda, na velocidade do ciscar de uma galinha, como se os corpos todos fossem apenas fantasmas apavorados.

Já do lado de fora, alguns ainda pediram calma seu Alcides, será que a gente não pode nem discutir futebol mais aqui?

Por essas e outras é que Alcides vendeu o estabelecimento, incluída a casa, o quintal cheio de pé de fruta, galinheiro com galinhas, patos e marrecos, chiqueiro com cachaço, porcas e leitões, cacimba cheia, e foi se estabelecer na chegada da vila de Liberdade, na curva dos eucaliptos, em terras de Moacir Monteiro, na estrada que ia e voltava, para todo o sempre.



Imagem em areialvirtual.blogspot.com.

8 de julho de 2013

O CANALHA


Alfredinho Pestana nasceu com vocação para a canalhice. Dona Benedita, a parteira que o trouxe ao mundo, nas imediações do Largo do Boticário, notou isso, quando puxou o moleque pelas pernas. Desde a idade mais miúda, começou a dar mostras do que seria no futuro.
E passou pela infância e adolescência exercendo esta virtude tão nobre ao espírito de certo tipo de gente.
Ao lhe chegarem os primeiros fiapos no buço, tratou de desenhar um bigode que só os canalhas usam. Desses que, ainda que o cidadão não o seja, ao fazer aquele desenhozinho sem-vergonha na aba do beiço, transformam o sujeito num canalha de imediato. Com reconhecimento por onde passe.
E, amparado nesse bigode, foi que um tio deputado estadual lhe arranjou emprego na companhia de águas e esgotos da cidade. Alfredinho Pestana, também Pestaninha para os da sua laia, entrou pela janela, como se dizia, e tratou de nunca dar expediente integral, nem quotidiano, a fim de que o chefe não se habituasse à sua impoluta presença na repartição. Mas sempre estava lá, no espaldar da cadeira, o paletó manjado a denunciar sua ausência do recinto.
Há canalhas que têm certo aplomb. Alfredinho era um desses. Quem o visse à distância, sem que lhe ouvisse as cascatas de canalhices a sair pela boca, poderia tomá-lo por lorde inglês decadente, ainda procurando manter certa pose. Era uma figura meramente figurativa, sem conteúdos humanísticos e intelectuais.
Na época em que reinou nas imediações da Rua do Mercado e adjacências, no início da segunda metade do século passado, dava-se ao desplante de sussurrar saliências nos ouvidos de moças que passassem ao seu derredor. Na esquina da Rua da Quitanda com Primeiro de Março, até conseguiu produzir uma depressão na calçada de pedras portuguesas, de tanto estacionar ali sua pessoa, na ânsia de conseguir que as canalhices que dizia às moças surtissem algum efeito. E, não raro, saía ele de compromisso apalavrado para o hotelzinho furreca que ficava na esquina de Rosário, o qual, muitos anos depois, desabaria de tanta vergonha cometida em horário de expediente laboral.
Alfredinho não tinha na cara nenhum lustre a perder e não se ofendia com as respostas malcriadas que recebia pelas platibandas da maioria das mulheres com quem se engraçava. Sabia que o princípio básico que rege a canalhice é a cara de pau. E se fiava na lei das probabilidades matemáticas, para produzir um sem-número de frases de duvidoso efeito a se lançar à cata de corações incautos. De dez, uma que caísse era, como se dizia, naquele tempo, macuco no embornal. E o resto, depois, era saçaricar na porta da Colombo, com seu costumeiro grupo de canalhas profissionais, que teimavam em fazer resistir uma tradição em vias de extinção.
Mas como, até para os canalhas, o mundo não é um mar de rosas, deu de cair em suas graças mulata bem apessoada, moradora das imediações da Gamboa, quase chegando ao Santo Cristo, que lhe rendeu aborrecimento de grande vulto.
Imagem em artedaqui.com.br.

A tal mulata, cujo nome de batismo era Gerusa, tinha portentosos talentos físicos a emoldurar sua pessoa, tanto que, ao passar, era como se um tufão varresse os pescoços masculinos para um só lado das calçadas do centro da cidade.
Como são inescrutáveis a lógica e a mente feminina, a mulata acreditou piamente em todas as mentiras deslavadas que Alfredinho lhe expôs e passou a enganar seu parceiro de longa data, um mulatão dobrado, que atendia pelo codinome de Absoluto e dava plantão como x-9 na delegacia da Praça Mauá, nas noites de fim de semana.
Absoluto não era – para não fazer um trocadilho infame – absolutamente uma pessoa sensível e de coração macio, de modo que, ao saber dos pulinhos de sua mulata, através de ligação anônima para um daqueles antigos telefones de repartição policial, tratou de dar um flagrante delito na sem-vergonhice dela.
E foi achar Alfredinho deitado na cama, em ceroulas brancas, meias até o meio da canela, piteira baforando fumaça pelo quarto do hotelzinho hoje inexistente. Gerusa, naquele exato instante, fazia a higiene parcial de sua mulatice, a fim de deixar a área de lazer mais limpa que corredor de berçário de recém-nascido.
Sem tempo de perceber o que acontecia, Pestaninha foi posto a pescoções escadinha abaixo, naquele trajezinho comprometedor, até a porta da rua, e entrou no primeiro lotação que passava pela Primeiro de Março, virando motivo de chacota para os passageiros das quinze horas.
Da mulata Gerusa ele nunca mais soube, nem notícias procurou, com medo de que Absoluto perdesse em definitivo as estribeiras e encomendasse sua alma às profundas do inferno.
No dia seguinte, a Luta Democrática, de Tenório Cavalcanti, informou o infortúnio de Pestaninha, em página interna, sem muito destaque, já que não havia corrido sangue, interesse primordial do diário, tendo-se constituído apenas em entrevero de somenos importância.
Como bom canalha que era, Alfredinho Pestana nunca tomou tenência na vida, mesmo depois do vexame por que passou. Apenas procurou, a partir de então, saber dos antecedentes amorosos de suas conquistas, de modo a não expor, em demasia, sua pele a desgastes irreparáveis.

7 de junho de 2013

ANTIGA CANÇÃO GRAVADA EM DISCO DE VINIL, 78rpm

(Publicado orginalmente em Gritos&Bochichos, em 6/6/2010.)
 
LADO A
Despachou o marido para a cidade dos pés juntos e partiu para a esbórnia. Antes, porém, doou as roupas do falecido para a caridade. Nas suas, pôs fogo e enterrou as cinzas no quintal. Comprou guarda-roupa novo, cheio de balangandãs, cheio de penduricalhos. Fez corte picado no cabelo. Mulher que faz corte picado no cabelo é um perigo, causa mais devastação que vento encanado, pensou de si para consigo. Que me aguardem! – concluiu o pensamento libertário.
Teve de aguentar aquele traste por vinte anos. Mão-de-vaca escolado, deu uma vida de mesquinharias, de folhas de alface e carne-seca ponta-de-agulha. Quando comia melhor, era aquele frango de padaria, com a farofa de brinde, nas ocasiões em que o padeiro resolvia fazer promoção. O agora defunto chegava com bafo de cerveja, alegava estar sem fome e ia dormir até a hora do jogo na televisão. Quando muito, ele se agarrava a uns livros velhos, sebentos. Se tivesse posto vidro moído no feijão, pode ser que tivesse abreviado a sensaboria de sua vida.
Nos últimos dois anos, após um insulto cerebral que o deixou meio adernado para o lado direito, voz estropiada, olho zambeta, suportou sobremaneira as agruras do inferno matrimonial. Nem dinheiro tinha para contratar ajudante que amenizasse sua trabalheira. E como dar banho naquele monte de banha repulsivo?
Depois que o miserável morreu, descobriu uma poupança polpuda na Caixa Econômica, que lhe foi passada por ser única herdeira, e com ela saiu fazendo visões e aparências modernas. Então era um tal de saia curta, roupa colorida, batom carmim, chapéus de abas larguíssimas. Até o andar ela modificou. Andava como se estivesse em passarela de desfile da Casa Masson.
Ainda rondavam sua memória as palavras ofensivas que endereçara ao finado, ao lado do caixão, para dar fechamento àquela relação mixuruca, mas que morto nenhum gostaria de ouvir. E tudo na segunda pessoa, tal qual letra de samba-canção:
- Vai-te, sovina miserento! Infernizaste minha vida desde o fim da lua-de-mel. Contigo comi o pão que o diabo amassou e só não desencarnei porque me apeguei a São Jorge, que é muito mais forte que tu.
Na missa de sétimo dia, encomendada a fim de não fazerem desabonações dela, já chegou com rapaz alugado a peso de trufa branca de terras de Itália, com o qual foi posteriormente tomar vinho do Porto Adriano Ramos Pinto em restaurante da Zona Sul. Era a vida que pedira a Deus. Quem mandou morrer, papudo?
LADO B
Foi abotoar o paletó logo no momento em que estava com dinheiro bastante para mandar a megera embora e engatilhar possibilidades com menina nova, fornida em carnes, de perna roliça, anca inchada. Isso era o que queria. No entanto estava ali, estendido num caixãozinho muito mixuruca, que a viúva lhe comprara. Mas o que fazer? Escondera o dinheiro de tal maneira, que a mulher ficou sem caixa para lhe dar um pijama de madeira mais ostentoso.
Impotente, de canela espichada, ainda teve de aturar, sem retrucar, cada palavra que ela lhe dirigia, em tom de sussurro, como se recitasse letra de samba-canção. Mas pode esperar, isso não vai ficar assim, não é mesmo? Neste ínterim, ficou decepcionado, porque descobriu que não viraria fantasma, nem alma penada, para atazanar o juízo da desinfeliz. Seu invólucro carnal era totalmente desprovido de visagem. Que maçada! – ainda pensou em forma de texto machadiano, de que tanto gostava.  Era oco, totalmente oco!
E imaginar que juntara todo aquele dinheiro às escondidas, para que ela não virasse uma zinha qualquer, frequentadora de Casa Sloper. E a comida que ela fazia? Nem na pensão de dona Preciosa comia tão mal em seus tempos de solteiro. Deu sorte de que ela não tenha posto vidro moído no feijão, senão era capaz de já ter morrido há mais tempo. Também de que adiantou morrer mais tarde, já que morreu antes dela? De nada serviram os trabalhos de um pai-de-santo da Pavuna com o frango de padaria que, às vezes, levava para casa. Nesses dias, nunca almoçava. Dizia que tinha comido, no botequim, pão com salame acompanhado de filas de cerveja. E como cozinhava mal: nem carne-seca sabia fazer, a coisa mais fácil do mundo para ficar boa!
Ainda foi ter aquele maldito derrame que lhe deixou metade do corpo paralisado, a fala desnorteada e o olho embaciado. Então é que pôde sentir quem era ela. Mas também não tinha mais como reagir. Às vezes ficava uma semana sem um bom banho, só com pano molhado pelo corpo, como se fosse um velho assoalho de tábuas, onde não se joga água para lavar.
Agora, estirado ali naquele caixãozinho furreca, rodeado de flores tristes, pôde enfim ter o último desejo permitido a um morto: que ela arranjasse moço novo, cheio de espertezas, e lhe torrasse até o último centavo da caderneta da Caixa, para ficar só com a pensão do INSS. Bem feito, doidivanas!
 
 
 
Imagem em htforum.com.
 

 

29 de maio de 2013

A TORCEDORA


Todo dia de jogo do time do falecido, a viúva chorava copiosamente. De remorso.

Em vida dele, vivia de implicância contra aquele seu gosto esquisito por futebol, e o ritual que ver uma partida do time de coração exigia. Em primeiro lugar, abria a bandeira no arremedo de varanda, muito mais um balcão sobre a rua movimentada, só para implicar com o vizinho de frente. Já paramentado com o uniforme completo do clube, exceção feita apenas à chuteira, pois usava tênis, sentava-se numa confortável cadeira, mesinha com a cerveja do lado direito, os tira-gostos num banquinho do lado esquerdo. Começado o jogo, só se levantava para ir ao banheiro no intervalo. E atendia apenas solicitação da mulher se se tratasse de incêndio incontrolável em algum cômodo do apartamento. Se fosse fogo menor, ela que jogasse um balde d’água em cima. Fora isso, não lhe dirigisse a palavra, sobretudo se seu time estivesse perdendo. E, pior, deveria servir-lhe nova cerveja, tão logo aquela acabasse.

A mulher tinha verdadeiro horror àquilo tudo. Não via hora de pôr um ponto final na extravagância do marido.

Até que um dia, aos quarenta e oito minutos do segundo tempo, na final do campeonato estadual, seu adorado time levou um gol em impedimento, que Sua Senhoria, aquele filho de uma que ronca e fuça, não marcou, e lá se foi a possiblidade de se tornar bicampeão e esfregar a faixa na cara do Marquinho Solidão, seu colega de repartição e odioso torcedor do inimigo. Aquilo foi tanto para seu coração, que ele empacotou ali mesmo, com estardalhaço, grunhindo como um porco ferido por potente peixeira. E esparramou seu cadáver defunto diante da tevê, a mulher gritando lá da cozinha para que ele parasse de fricote e se comportasse como um ser civilizado e não como um viquingue invadindo a costa da Islândia.

Ao chegar à sala, para inteirar-se da situação e tentar pôr ordem na casa, encontrou o marido em estado de passado desta para a melhor, em passivo baixado do rol dos viventes, dívida extinta.

Ela se desesperou.

Gritou pelos céus que lhe salvassem o marido. Deu-lhe socos no coração de partir costelas, fez respiração boca a boca, como se beijasse um leitão estertorando, mas não houve solução para a morte. O marido tinha sucumbido à roubalheira daquele juizinho safado. Os impropérios contra a genitora do árbitro foram as derradeiras palavras do homem. E nada mais de inconveniente saiu daquela boca cheia de dentes, emoldurada por bigodinho de cantor de seresta.

No velório, a viúva não se cansava de explicar a todos que a vinham cumprimentar como se dera o passamento daquela alma agora cândida e perfumada. Só lhe tinha palavras elogiosas. Todos os aborrecimentos que tivera com ele, sobretudo os relativos à sua paixão esportiva, desapareceram milagrosamente. Inclusive fez questão de que ele fosse enterrado completamente uniformizado e com a bandeira do clube sobre o caixão.

Depois que, pela capela mortuária, passaram todos os religiosos – das mais diversas religiões – encomendadores de almas, pediu encarecidamente aos presentes entoarem o hino do clube, o que causou certo constrangimento aos amigos torcedores de times rivais, como o Marquinho Solidão, que se fez de surdo-mudo naquele momento de solenidade funérea.

Enterrado o defunto, rezada a missa de sétimo dia, como purgação a viúva passou a assistir religiosamente a todos os jogos do time dele, mantido o mesmo ritual, embora não bebesse cerveja, e chorando copiosamente, nas derrotas, nos empates e nas vitórias, não distinguindo mesmo para que lado torcer, tão logo Sua Senhoria, aquele maldito vestido de papa-defunto que lhe matara o marido, desse início à partida.
Imagem em trivela.uol.com.br.

25 de maio de 2013

TOBIAS BODE VELHO


Alzirinha pegou o marido Tobias masturbando-se, no fundo do quintal, sob uma mangueira frondosa, olhando a foto de uma cabrita que eles tiveram por alguns anos e que fora vendida para virar cabritada à napolitana, no casamento de um amigo do casal – a cabra Mimosa.
Ela, apoplética, só teve tempo de gritar, a plenos pulmões, antes de desmaiar:
- Tobias!
Hoje, passados quatro anos da separação litigiosa do casal – a fotografia serviu de prova contundente contra o marido -, o barulho do grito da mulher ainda reverbera nos tímpanos de Tobias.
Antes ele não tivesse cometido aquele ato, mas era praticamente impossível, diante de tanta mimosura caprina.
A mulher, havia alguns anos, negava fogo, sempre que ele chegava do jogo de sinuca, a cuca esquentada com incertos goles de conhaque de gengibre, a querer saliências com ela.
Alzirinha já havia aposentado suas partes, em pensamento, embora ainda se dispusesse a atender o marido nessas horas incômodas do dia. Ia, por ir, mas era como se não estivesse nem ali. Enquanto ele se esforçava, bufava, suava, ela ficava olhando o teto, pensando nas providências a tomar no dia seguinte: faria um angu com galinha ao molho pardo, ou uma carne-sequinha espelhada com aipim frito, ou mandaria a empregada vasculhar as teias de aranha do telhado?
Depois que Tobias se dava por satisfeito – por vezes, isso demorava um pouco, pois o desempenho não era mais essas coisas todas –, ela se levantava, ia até o banheiro para se lavar, “ariava os dentes”, como dizia, e ligava o rádio de cabeceira para saber das últimas catástrofes do noticiário. E, pensava, nenhuma era maior que a sua: ter de suportar com estoicismo um marido cheio de fogo àquela altura da vida e, pior, sempre com bafo de conhaque de terceira categoria.
Mas o que fazer? Era casada com comunhão de tudo, e tudo deveria suportar, em nome da estabilidade daquele arremedo de lar.
Contudo, a gota d’água que faltava para que seu pote de tolerância derramasse ocorreu exatamente naquela tarde de terça-feira, quando resolveu ir até o fundo do quintal colher cebolinha verde e salsa, para a canja do jantar. Pegou em flagrante delito de autossexo, se é que isso exista, o marido nojento e insuportável. E só teve tempo de gritar-lhe o nome odioso, antes que desfalecesse diante de tamanha ignomínia.
- Tobias!
No dia seguinte, refeita do piripaque, procurou o escritório do Doutor Florêncio, para exigir o fim do consórcio nupcial. Não poderia conviver com alguém que se satisfazia solitariamente e, ainda mais, tendo por inspiração a cabra de estimação da família por tantos anos.
E amaldiçoou o instante em que aceitara de seu próprio pai, como presente, aquele filhotinho inocente de um bicho que muita gente tem como parceiro do demo. A cabrita deveria ter lá seus encantos ou o marido era definitivamente um tarado de marca maior, era o que pensava. E ficou com a segunda hipótese, pois nem mesmo um cheirinho de leite de rosas a cabra possuía.
A princípio, ela quis a anulação do casamento, o que não foi possível. Conformou-se, então, com o desquite litigioso, de que fez questão, pois não queria ser conivente, em nenhuma hipótese, com a situação, nem mesmo fazer acordos com o amante da cabrita.
E, nas barras da justiça, Tobias viu seu pouco prestígio baixar à cova rasa do opróbio.
Agora, passados quatro anos, ele ainda ouve, nos momentos de silêncio em que a vila mergulha, depois da novela das nove, o grito lancinante da ex-mulher, a persegui-lo noite adentro, até que o sono tome conta de seu corpo.
- Tobias!
Até mesmo com os parceiros de sinuca perdeu a estima e só pode pegar no taco, quando aparece algum neófito na arte das encaçapadas. Os bons jogadores, esses que fazem o nome de qualquer mesa, não o desafiam mais para uma partida. O amor concupiscente pela cabra acabou por liquidá-lo.
E, ao passar pelas ruas, é identificado por todos como Tobias Bode Velho, viúvo da cabra Mimosa.

Imagem em rezboa.blogspot.com.

18 de maio de 2013

A GATA


Tinha viajado e deixado minha gata com meu primo Olavinho.
Reconheço que Olavinho não seria a pessoa mais indicada para tomar conta da gata. Mas elaborei um manual de instruções completo, deixei as rações, os brinquedinhos dela, o número do telefone do veterinário, e resolvi ir passar uns dias em Canoa Quebrada, a fim de tirar das costas um ano de aporrinhações no trabalho.

E, mal desarrumei a mala, recebi a ligação do primo:
- Trajano, sua gata não está respirando.

- Como não está respirando, Olavinho? Que informação é essa?
- Pois é! Parou de respirar. Eu até chamei o veterinário.

- E o que ele disse disto, Olavinho? Não estou entendendo! Se parou de respirar, é porque não está mais viva. É isso, Olavinho?
- Pois é! É mais ou menos isso!

- Como mais ou menos, Olavinho?! A Penélope – este é o nome da minha gata –, afinal, está ou não está viva?
- Pois é!

- Porra, Olavinho, pare de falar pois é e diga logo o que aconteceu!
- Morreu, porra! Sua gata enjoada e cheia de chiliques parou de respirar, porque morreu, empacotou, passou desta para melhor! Entendeu, porra?! – disse Olavinho, com uma carrada de sinceridade que me espantou. E continuou. – Eu estou aqui, querendo te dar a notícia, com cuidado, para você também não ter um chilique, e você me apertando. Pois é isso mesmo: a Penélope mó... rreu!

O filho da puta do meu primo ainda imitou o Tiririca, para dizer que minha gata de estimação havia falecido.
Não se dá uma notícia assim desta forma.

- Porra, Olavinho, isso é jeito de dar essa notícia?!
- Você queria que eu começasse dizendo que ela subiu no telhado? Ah, Trajano! Isso é muita frescura para mim. Você e essa gata sua... Por que não arranja uma gata mulher para cuidar, Trajano? Aí duvido que você a deixasse comigo, ao viajar! Agora, esse bicho cheio de manias, esquisito à beça, que olha para gente com soberba, você empurra pra cima de mim.

- Tá bom, Olavinho! Tá bom! Depois a gente discute esse negócio de mulher. Mas me diga o que aconteceu e que providências você tomou.
- Não tomei providência nenhuma, a não ser chamar o veterinário, que constatou a morte. Ele disse que foi o coração dela, já muito velho, que parou de funcionar. Agora quero saber o que faço com esse cadáver aqui. Vou botar numa caixa de sapatos e enterrar no fundo do quintal.

- Pelo amor de Deus, Olavinho, você não vai fazer essa desfeita comigo: colocar a Penélope numa caixa de sapatos! Quero um enterro digno para ela, com caixãozinho de verdade.
- Acho que você está querendo muito, Trajano. É melhor resolver isso logo, antes que a gata comece a feder. Se duvidar, jogo a bicha no latão de lixo ali da pracinha.

- Se fizer isso, Olavinho, nunca mais falo contigo e você ainda vai ter de me pagar aquele empréstimo que te fiz o ano passado, assim que eu chegar aí. É guerra?!
- Tá bem, Trajano! E onde eu encontro essa porra de caixãozinho de gato? Em alguma petshop?

Dei as instruções de onde comprar o ataúde felino, recomendei, então, que ela fosse enterrada embaixo da jaqueira que tia Ponciana, mãe dele e irmã da minha mãe, havia plantado há tantos anos, e que ele, Olavinho, fizesse um túmulo com pedras roladas de vários tamanhos, que ele podia também comprar na petshop.
Depois de ouvir tudo e se submeter à minha vontade, a fim de abrandar meu coração de credor enfurecido, Olavinho resolveu fazer a última pergunta:

- Trajano, com quem você está aí em Canoa Quebrada? Não vá me dizer que viajou sozinho!
- Porra, Olavinho! Claro que não! Vim com a Maria Clara, aquela colega da empresa, do Recursos Humanos.

- Aquela gata gostosona, Trajano, que todo mundo fica de olho em cima?
- Ela mesma, primo!

- Sabe de uma coisa, primo: você pode até me cobrar o dinheiro, mas depois dessa vou é jogar a Penélope no latão do lixo. Vai te catar, Trajano! Com uma gata dessas embaixo da sua pessoa e choramingando por um bicho que nem cafuné te faz.
E desligou o telefone o miserável!

Vou cobrar o dinheiro assim que desembarcar no Tom Jobim. O filho da puta é que vai me esperar lá, com o meu carro, que deixei com ele para as esbórnias de fim de semana.
Imagem em gartic.uol.com.br.
 

24 de abril de 2013

1 ALMEIDA, 2 E 3

ALMEIDA 1
- Almeida, encoste a porta antes de entrar e não deixe as meias na pia do banheiro!
Toda noite era a mesma coisa, e Almeida, praticamente incorrigível. Se ela não falasse, ele deixava aberta a porta do quarto, por onde entrava um ventinho frio no meio da madrugada, capaz de atiçar a asma encruada da Zuleica, e suas meias usadas ficavam disputando espaço com os inúmeros potes de cremes da mulher.
O formalismo de Almeida, apesar dessas duas pequenas falhas de comportamento, se refletia até mesmo no sacrossanto recesso do lar: sua própria esposa o chamava pelo nome comercial: Almeida. Como se fosse a marca de algum produto de limpeza, de um leite UHT.
Almeida se passava por uma empresa prestadora de serviços de contabilidade, embora ele mesmo não fosse proprietário de empresa nenhuma. Porém era o contador sênior da Seabra & Seabra há vinte anos. Lá reinava com seus números e suas vírgulas, pesquisando centavos ao fim dos balanços, como se procurasse trufa negra.
Contudo, em casa, era um homem de modos antigos, de não saber fritar um ovo, nem passar um café. A mulher, Zuleica, que só não foi registrada com K porque o tabelião, à época, era um nacionalista ferrenho e não grafava nenhum nome de recém-nascido com letras estrangeiras, já se adaptara a ele. Talvez isso – a falta do K – tenha feito com que Zuleica se casasse com um tipo como o Almeida, que não cheirava nem fedia, mas era correto com ela.
A única coisa realmente esquisita que a mulher achava nele, dentre todas as esquisitices que um contador esquisito e metódico pode ter, era de, a cada quinze dias, ir fazer obrigação de santo num terreiro depois de Vilar dos Teles, de onde voltava só na manhãzinha seguinte, todo estropiado por ter passado a noite em vigílias e trabalhos espirituais.
Invariavelmente chegava a casa, nesses momentos, trazendo um frango assado com farofa, sobra do dia anterior, que comprava na padaria em frente do ponto de ônibus a preço de promoção.
Zuleica, então, se levantava, fazia-lhe um arroz fresco, bem molhadinho, carregado no alho e no azeite extravirgem, como de seu gosto, e o via devorar a metade do galináceo requentado no forno micro-ondas.
ALMEIDA 2
Almeida era o Almeidão para os seus colegas de trabalho da Seabra & Seabra, empresa de assessoria contábil, com um razoável portfólio na praça de Madureira e adjacências, prestadora de serviço para a maioria das lojas, quiosques e boxes do Mercadão.
Embora fosse tido como um cara correto profissionalmente, recebera o apelido de Almeidão pelo seu porte físico e, sobretudo, por seu bigode da largura do beiço superior, aparado de forma quadrada, o que lhe dava ares de sujeito antigo, severo e disposto a um balanço complicado.
Almeidão não deixava que seu adereço piloso ficasse sem uma tinta negra encorpada, de modo que, de longe, se podia perceber a chegada do dono só pelo brilho da bigodeira. Aquilo chegava a ser uma ostentação na empresa.
Quase certo como dois e dois são quatro, na primeira sexta-feira do mês, após o pagamento dos salários dos funcionários da empresa, Almeidão comandava uma rodada de chope com seus colegas, ocasião em que aproveitava para dar uma relaxada, contar umas piadas antigas e rir de modo travado, como deveria ser do feitio de um contador sênior, cheio de responsabilidades.
Nessas oportunidades, tomava duas ou três tulipas de chope e ia embora para casa, porque a “patroa estava esperando para as compras do mês no mercado”, como gostava de dizer.
Os colegas mais chegados, então, gritavam em uníssono, quando ele saía porta do bar afora, em direção ao ponto do ônibus que o levaria para casa:
- Vai, Almeidão!
Ele, um tanto envergonhado, levantava o braço desocupado da valise, sem olhar para trás, e sumia no meio da multidão.
Tinha cumprido sua tarefa mensal de Almeidão.
ALMEIDA 3
Quando Almeidinha chega à casa de Vanúsia, a cada quinze dias, sempre às sextas-feiras, sabia a vizinhança que a reinação iria entrar noite adentro.
Vanúsia era sua colega de trabalho na Seabra & Seabra e se dispôs a dividir lençóis e travesseiros, em forma de concubinato consentido, pois sabia do estado civil de Almeida. Tudo começou depois de uma noite que tiveram de dobrar à procura de alguns centavos perdidos nos registros do balanço anual do Talho Capixaba, açougue bem estabelecido pelos lados do Mercadão.
Ao voltar da copa, onde fora pegar um cafezinho para a colega de procuras minuciosas, chegou seu bigodão indecente no cangote moreno dela e liberou alguns haveres futuros e salientes, de modo que Vanúsia achou por bem abrir uma firma paralela com dona Zuleica, com caixa dois e tudo, mas sem registro nos anais da Junta Comercial.
Aí o Almeidão passou a ser o Almeidinha, que chegava sempre com uma garrafa de vinho tinto, uma pastilha azul, e a disposição que não tinha nem em Seabra & Seabra, nem em sua casa na Travessa Natal, quase esquina da Carvalho de Souza.
A noite, então, não tinha horas para terminar, pois não acabava senão aos primeiros alvores do dia, quando, com um beijo nos lábios carnudos de Vanúsia, ia em direção ao ponto de ônibus que o deixaria em frente à padaria, onde compraria o frango assado que sobrara da sexta-feira e iria matar a fome de uma noite de esbórnia, encoberta por devoções inexistentes.
E Zuleica, sem K, o recebia cedinho, arrozinho fresco para acompanhar o frango assado, pesarosa dos graves deveres de filho de santo de seu devotado marido Almeida, sisudo contador sênior de Seabra & Seabra, há mais de vinte anos.



Imagem em rubylane.com.



9 de abril de 2013

CARLINDA CHUTOU O PAU DA BARRACA


Carlinda chutou o pau da barraca, como se diz naquele beco estreito do bairro fofoqueiro da Vila Coreia.
Carlinda abandonou os três filhos com o marido, Diomedes, e fugiu com o palhaço do circo que viera instalar-se no terreno baldio de sempre, cedido por seu Fulgêncio, sob módico aluguel.

Quando, antes da primeira luz da manhã, o caminhão do circo levantou a última poeira no Morro do Mato, deixou no ar um peso terrível nas costas do Diomedes.
Mas Carlinda sempre fora desembestada na vida.

Quando criança pequena, como todas as crianças de sua idade, brincava de boneca. Ao chegar aos nove anos, começou a brincar de médico e doente com os meninos da vizinhança. Aos quinze já se deitava com os mais espertos. Ao se casar, houve um zum-zum-zum na vila, porque mais da metade das fofoqueiras já não esperavam que ela encontrasse quem a quisesse, difamada e reprovada por línguas ferinas das vizinhas dos quintais de cerca de arame farpado.
Diomedes a quis. Fez que não sabia de nada, deu-se por desentendido – ou paspalho, como diriam os homens da sinuca e do cisprandi – e providenciou tudo, desde o padre, até o vestido de cor creme, para que não desse mais motivos para as línguas de trapo.

Vieram três filhos de carreirinha, um mais velho que o outro cerca de um ano apenas: Dionísio, Deoclécio e Diomedes Júnior, o qual, segundo as mesmas péssimas línguas, era a cara do rapaz que cortava tecidos na loja do Cid. Até uma pinta escura sobre a sobrancelha esquerda, o menino tinha. Valha-me Deus!
Diomedes nunca se fez de entendido. Gostava da brincadeira.

Carlinda era uma mulher avultada nas carnes: coxas grossas, ancas volumosas, sem exagero, platibandas superiores de fazer vista. Era isso que ele queria. Não sabia muito bem o que seria um casamento com Carlinda, possuída de um fogo entre as pernas famoso na vila. Tanto grande e saliente, que ela procurou acalmá-lo muitas vezes antes de tomar estado com Diomedes. E, possivelmente, também depois.
Nunca fizera muita questão nessa coisa de casamento, marido e filhos. Casa para cuidar, com todos os seus encargos sem salário. Contudo percebeu, por volta dos trinta, que começava a ficar estranha no meio de tanta gente de sua idade já casada. Por isso não relutou em aceitar a intermediação de sua mãe viúva para as pretensões de Diomedes, levadas até ela após a missa de um domingo ensolarado, na pracinha da vila.

A mãe, dona Lucinda, ouviu as ponderações de Diomedes, seus planos, suas promessas, e viu naquilo a salvação da honra da filha, tão difamada, tão espezinhada. E chegou para ela com argumentos fortes, contundentes.
Ia ser difícil, depois do pai morto e da previsível sucumbência de sua velha mãe – Deus a guardasse por mais tempo – manter-se vida afora, sustentar-se.

Carlinda não trabalhava fora. Vivia, se é que se pode dizer, de fazer paninhos e bordados, marcas e ponto em cruz, que vendia a uns e outros. Tudo coisa de pouca monta, sem valor maior para o sustento de uma casa.
Passou quase uma semana avaliando a proposta de Diomedes.

O pretendente era proprietário do bar da esquina da praça, onde havia uma mesa de sinuca. Seu estabelecimento sempre estava com fregueses. Quando as bolas não rolavam sobre o pano verde, alguém tomava uma cerveja, um refresco de groselha, ou comia um pastel de carne moída com batata picadinha, um bolinho de mandioca. No verão, a venda de picolés era grande.
Mas Carlinda impôs uma condição: não iria para o fogão fazer frituras para o bar. Podia, sim, ficar ao balcão atendendo os fregueses, nos momentos em que ele não pudesse.

Condição aceita, os dois marcaram o casamento para três meses depois. E foi o tal zum-zum-zum na vila. Agora, inopinadamente, na calada da madrugada, quando Diomedes se levantou para ir ao banheiro e verificar se os filhos estavam protegidos do friozinho de maio, encontrou a janela da sala aberta, a cortina de tule balançado e um perfume de traição recendendo no ambiente.
Carlinda pulara a janela, pois as dobradiças da porta, por velhas, iriam denunciar a fuga. E, como uma menina arteira, colocou o canapé encostado à janela, a fim de lhe facilitar ultrapassá-la.

Sobre a mesa, um bilhete, em letra caprichada – naturalmente feito com todo o cuidado –, em que se despedia dele e dos meninos e explicava que havia encontrado, finalmente, a paixão nos braços do palhaço Rapadura. Não a procurasse mais, não fosse desesperado atrás dela, pois até já tinha aceitado a função da moça assistente do atirador de facas.
Diomedes, que nunca rezara em sua vida, entre lágrimas, pediu a Deus que desnorteasse a mão do miserável atirador de facas e o fizesse acertar uma delas bem no coração da ingrata, no dia da sua estreia triunfal no Gran Circo Pan-Americano.
Imagem em pt.dreamstime.com.

11 de março de 2013

VOCÊ... E SEU NOME


Você se chama Nina. Ou melhor, Rosângela. Mas odeia o nome desde menina. Desde que teve de compartilhar a carteira com a outra Rosângela. Rosângela Seabra, para ser mais preciso. Um poço de antipatia. Você, a Rosângela Silva. A professora tinha mania de ordenar os alunos por ordem alfabética. Por isso os assentos compartilhados. Então, resolveu que, a partir daquela aula tal, no dia qual, não seria mais xará da nojenta, da petulante. E trocou seu nome para Nina. “Aí, galera, ninguém agora vai me chamar mais de Rosângela. Agora sou a Nina.” Você só tinha dez anos, mas já sabia o que queria da vida. E o que não queria! Uma dessas coisas era ser xará da Rosângela Seabra, a pernóstica, a podre, como você dizia. E passou o tempo todo de escola como Nina, até chegar à faculdade. No curso de Educação Artística, no primeiro dia de aula, na primeira aula, vai o professor de Português fazer a chamada. “Rosângela Silva?” Você se levanta e diz “Professor, por favor, não me chame por este nome horroroso. Eu sou a Nina daqui em diante. Aí, sou a Nina! Certo, galera?” Quatro anos depois, no dia da formatura, você é convocada a subir ao palco para receber seu canudo de brincadeirinha: “Nina Silva!” E é ovacionada pelos colegas.
 
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Você se chama José de Souza Machado. Na folhinha, corriam desacelerados os primeiros anos da década de 10 do século passado. Descobre, muito a contragosto, que há um seu homônimo, de cabo a rabo, do jota inicial ao o final, que anda enxovalhando o nome na praça, com pendências de dívidas e negócios escusos, sentando em tratos e não cumprindo palavra dada. Você é um homem de bem. Tem brios e vergonha na cara. Inclusive engatilhou casamento com a filha do Coronel Antonico Pinto e não pode – e não quer! – ter o nome sujo. Resolve, por isso mesmo, de moto próprio – coisa que lhe deu na telha –, passar a se chamar José de Paula Machado. Casa-se José de Paula Machado, abre conta no banco José de Paula Machado e sobrenomeia um dos dez filhos com o Paula, que tomou emprestado a um ascendente. Na única e derradeira vez em que fica doente – com aquela doença ruim, a inominada matadora de gente boa –, os filhos vão dar entrada nos papéis para o INSS e descobrem, meses antes de fazer a passagem, que você nunca foi José de Paula Machado, como consta de todas as certidões de nascimento de filhos e netos. Você é exatamente como seus outros seis irmãos: um Souza Machado. Mas isso é letra morta na genealogia da família. Você ficou eternizado José de Paula Machado.
 
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Vocês são duas, distanciadas pela idade e pela geografia. Você, mais nova, é Felisbela e odeia o nome. Pede ao professor para ser chamada por Bela. O professor a examina dos pés à cabeça, respeitoso porém admirado, e cogita que o apelido se aplica perfeitamente à pessoa: menina-moça morena, alta, olhos e longos cabelos negros, rosto juvenil equilibrado, sem marcas. Beleza que o uniforme da escola pública – saia levantada até o meio da coxa roliça – não consegue esconder. Você é Bela e bela, com redundância e tudo. Você, mais velha, contudo, é Florinda e também tem ojeriza ao nome. Também pede ao professor que a chame de Linda, ao responder à chamada no curso de Administração, no primeiro dia de aula. O professor afasta os óculos dos olhos em sua direção. E constata o antagonismo visível entre o apelido e o atributo, entre o nome e o adjetivo. Você está acima do peso, a pele marcada, os olhos um tanto desalinhados atrás de uma armação escura nada elegante, uma sutil verruga sobre o nariz. Enfim, cada uma carregando o peso do nome, abrandado pela alcunha, que nem sempre faz jus à pessoa.
 
oxoxoxoxoxoxoxoxoxo

Você canta desentoado, semitonando nas notas altas. Sua carreira de cantor de barzinho faz esfriar o filezinho aperitivo mais saboroso. Principalmente quando canta música romântica. Você toca violão como se tocasse porco na estrada. A voz e o acompanhamento não casam, não se harmonizam. Mas você insiste. Canta a troco do lanche ao final. Um dia reclama com a amiga que sua carreira não deslancha. A amiga, cheia das mais estranhas superstições – aliás, todas as superstições são estranhas –, lhe indica um tarólogo-numerólogo-astrólogo-jogador de baralho cigano, com consultório na rua do matadouro. Você não crê, mas não descrê. Melhor não recusar, e procura o bruxo. Ele, o bruxo, depois de estudar seu mapa astral, jogar o baralho, mexer nos números, diz que o entrave está no seu nome. E lhe propõe colocar um ípsilon, um agá e dobrar uma letra qualquer, para dar equilíbrio e força, sem as quais a desafinação só iria piorar. Você aceita, até porque pagou caro pela ajuda. E passa a grafar Gennyvaldho. No primeiro fim de semana, perde o contrato de cantor do quiosque da pracinha. Segundo o gerente, ficou muito complicado escrever seu nome na lousa verde. Além disso, ele iria ocupar o lugar do preço do cachorro-quente.
 
Imagem em familiabarusso.blogspot.com.
 
 

6 de março de 2013

FEIJÃO AO VIDRO MOÍDO


Para ficar bem ao gosto do marido, engrossou o caldo do feijão, porém, com vidro moído, em tão grande quantidade que dispensava a farinha de mandioca de que ele gostava tanto.
O homem, capitão de todos os naufrágios, traste de todas as canalhices, sentou-se à mesa e ainda exigiu a pimenta malagueta que ele mesmo curtira com alho, cebola, grãos de pimenta-do-reino, azeitona e azeite extravirgem de boa qualidade. A pimenta cuspia fogo. No dia seguinte, ele passou a cuspir sangue.

O misturado que fez, juntando aos dois ingredientes o arroz requentado, fatias de um bife do almoço com molho ferrugem acebolado, uma sobra de jiló guisado, desceu queimando, escalavrando o esôfago e chegando ao estômago como uma dose dupla de formicida Tatu.
Achou que fosse obra da demoníaca pimenta:

- Eta, pimentinha repuxada na ardência!
Suavizou a queimação com goles de cerveja preta, que bebia fazendo barulho goela abaixo, soltando um arroto espaventoso a cada trago.

Era um porco insuportável.
Mas no dia seguinte começou a botar os bofes para fora.

A mulher fizera uma promessa a São Clemente, aquela rua que fica paralela à Voluntários da Pátria, na cama do namorado novo, rapaz entregador do mercado, que descobriu na cliente a fonte das delícias. Nem na bancada das frutas da estação encontrara tanta doçura, quanto no corpo da mulher, Giovana de nome de batismo, Gigi na intimidade dos lençóis. Pelo menos, era o que ele lhe confessava.
Gigi resolvera aplicar o par de chifres de veado campeiro no marido, quando descobriu que, além das falhas de caráter de que era portador com méritos desde o berço mais pequetito, ele mantinha a jovem Ritinha, balconista da lanchonete da esquina, tão enfeitada quanto morto ilustre.

Do par de chifres ao feijão engrossado com vidro moído, foi questão de ouvir uns ipsilones bem solfejados ao ouvido durante o entrevero carnal numa tarde de sábado chuvoso. Nada há de mais sedutor que tarde de sábado chuvoso. Ainda mais nos braços fortes de entregador de mercado, jeitoso que só ele para dizer coisas bonitas para mulheres desinfelizes no casamento.
- Empacota o corno, Gigi minha flor! Vai ser a única coisa que vou lhe pedir na vida, Gigi minha flor. Depois a gente faz a nossa vida.

Discutiram depois, enquanto recolocavam as roupas, os pormenores da passagem que o marido deveria fazer e optaram pela solução do vidro moído, conforme Gigi lera em alguns dos contos de Os mágicos municipais, livro que ele lhe presenteara há pouco. Neles, a mulher sempre despachava o traste a poder de vidro moído, sem que a polícia aparecesse nas linhas finais das histórias, para prender a homicida.
O entregador se incumbiu de moer o vidro, que deu à mulher durante a entrega de uma encomenda do supermercado.

Ela só esperou que, na próxima noite de quarta-feira, Givanildo chegasse um pouco mais tostado do botequim da Rua Paulo Barreto, onde se reunia com os amigos para ver o jogo pela tevê, e não atinasse no tempero diferente do pretão maravilha.
Para que o marido não percebesse, caprichou no alho refogado com cebola e louro, torresminhos de toucinho defumado, cominho em pó e bastante pimenta-do-reino. Se ele estivesse no completo controle de seu discernimento, sem a cuca cheia de álcool, talvez notasse algo estranho. Naquele estado, porém, sentiu apenas o tempero caprichado de Giovana.

- Esse feijão está nos trinques, mulher! É o melhor que você já fez na vida.
E comia com a boca dos famintos.

Foi a sua desgraça!
Quando chegou ao hospital e tomou lavagem estomacal, já perdera mais sangue do que a cervejada bebida na véspera e empacotou por falta do combustível do corpo.

Sua alma desacorçoada ainda bambeou um pouco, antes de abandonar o corpo inerte na maca do corredor do hospital público.
Quando a polícia bateu à porta do apartamento de Giovana, ela já dera linha na pipa com o entregador, que teve a foto publicada no jornal das sete como procurado por ter induzido ao crime uma mulher até então recatada e pudica, como atestaram os vizinhos.

Não era a primeira vez que Marcílio, o entregador, aprontava para cima de mulheres mal-amadas. E Gigi fora apenas mais uma de suas vítimas. Sempre induzidas a despacharem o marido a poder de feijão ao vidro moído, uma arma quase infalível.
 
Imagem em temdelicia.com (meramente ilustrativa: não contém vidro moído).